Ouvir antes de inovar: o contributo das pessoas mais velhas para uma tecnologia mais útil

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2026-10-25
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Este artigo baseia-se no estudo científico “Digital Health for Aging in Place: A Co-Design Study”, desenvolvido no âmbito do projeto de Doutoramento em Enfermagem, de Joana Bernardo Loureiro, intitulado “AtiVida – Desenvolvimento de uma Intervenção de Enfermagem com recurso digital para um Envelhecimento Ativo e Saudável”. DOI: 10.1177/2161783X261445292

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Muitas pessoas desejam continuar a viver em casa à medida que envelhecem. No entanto, envelhecer no próprio domicílio implica manter rotinas saudáveis, preservar a autonomia, continuar socialmente ligado e encontrar apoio quando surgem novas necessidades. A tecnologia pode contribuir para este objetivo, mas apenas quando se adapta à vida real, às capacidades e às preferências de cada pessoa.

Mas como podemos saber aquilo de que as pessoas mais velhas realmente precisam? Uma resposta possível é ouvir quem irá utilizar a tecnologia e envolver essas pessoas nas decisões desde o início. Em vez de desenvolver soluções apenas a partir da perspetiva dos profissionais ou das empresas tecnológicas, o co-design — ou desenho colaborativo — permite que pessoas mais velhas e outros intervenientes contribuam diretamente para a identificação de necessidades, para a proposta de melhorias e para a definição de prioridades.

Percurso do desenvolvimento da intervenção AtiVida – Estudo científico “Digital Health for Aging in Place: A Co-Design Study”

O processo decorreu em três momentos: exploração da plataforma, identificação de necessidades e barreiras e priorização das funcionalidades consideradas mais relevantes para utilização no domicílio.

Durante o primeiro momento, os participantes exploraram autonomamente a plataforma durante 30 minutos. Depois, partilharam as suas primeiras impressões, discutiram as condições necessárias para uma utilização independente em casa e organizaram as propostas de adaptação de acordo com a sua relevância e viabilidade.

Uma plataforma considerada intuitiva, útil e adaptável

Desde o primeiro contacto, os participantes destacaram a facilidade de utilização, o caráter intuitivo da plataforma, a organização visual da informação e a diversidade de conteúdos disponíveis. Os jogos e as atividades de estimulação cognitiva foram igualmente valorizados, bem como o potencial da tecnologia para favorecer a interação e proporcionar atividades significativas no quotidiano.

A possibilidade de individualizar a experiência foi um dos aspetos mais valorizados. Os participantes não procuravam uma solução igual para todos: pretendiam poder escolher conteúdos, adaptar atividades aos seus interesses e utilizar uma interface clara, legível e fácil de compreender. A personalização foi entendida como uma condição importante para que a tecnologia respeite as preferências, as capacidades e os objetivos de cada pessoa.

O que não poderia faltar numa solução para utilizar em casa?

Atividade física

A inclusão de uma componente de atividade física foi a sugestão mais frequente, tendo sido mencionada 27 vezes durante o processo de co-design. Os participantes propuseram exercícios simples, mobilidade, flexibilidade, fortalecimento muscular, vídeos e aulas em grupo adaptadas às capacidades das pessoas mais velhas. Esta funcionalidade foi classificada como essencial, correspondendo à categoria “Must Have” da técnica de priorização utilizada no estudo.

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Comunicação e interação social

A criação de uma rede de comunicação, com canais de conversa e de partilha entre utilizadores, foi também uma prioridade. Os participantes consideraram que a plataforma poderia criar oportunidades de contacto, participação e envolvimento social, sobretudo para pessoas que vivem mais isoladas ou que têm dificuldades em deslocar-se. Importa, contudo, interpretar este resultado como uma expectativa dos participantes: o estudo não avaliou diretamente efeitos sobre a solidão ou o isolamento social.

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Lembretes e organização das rotinas

Foram propostas agendas, lembretes personalizados, um diário de saúde, o registo de objetivos e notificações relacionadas com atividades, consultas ou medicação. Estas funcionalidades foram valorizadas por poderem apoiar a organização do dia, a continuidade das rotinas e a manutenção da motivação, sem substituir a decisão e a autonomia da própria pessoa.

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Aulas, vídeos e recursos educativos

Os participantes sugeriram a disponibilização de vídeos de exercício, aulas em grupo e conteúdos educativos sobre estilos de vida saudáveis. Consideraram igualmente importante existir um tutorial inicial, com orientações simples e claras, que facilitasse a aprendizagem da plataforma e aumentasse a confiança na sua utilização.

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Ligação aos profissionais de saúde

Enfermeiros e outros participantes sugeriram que, numa fase futura, a plataforma pudesse facilitar o contacto com profissionais de saúde e apoiar a continuidade dos cuidados. Também foi proposta uma caracterização mais detalhada da pessoa e das suas necessidades. Estas funcionalidades foram consideradas desejáveis, mas não prioritárias para a primeira fase de adaptação.

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Da utilização institucional para a vida quotidiana em casa

Estas propostas mostram que utilizar uma plataforma digital em casa coloca desafios diferentes daqueles que existem num contexto institucional. Numa instituição, a tecnologia beneficia de rotinas previamente organizadas, do apoio de profissionais e de acompanhamento próximo. No domicílio, a pessoa precisa de maior autonomia, de razões para continuar a utilizar a solução e de funcionalidades que apoiem a motivação, a personalização, a organização e a interação social.

Esta é uma das principais contribuições do estudo: demonstrar que inovar não significa necessariamente desenvolver uma tecnologia completamente nova. Também pode significar, adaptar, reutilizar e melhorar uma solução já existente, tornando-a mais adequada às condições reais de vida das pessoas e aos contextos comunitários. Esta estratégia pode favorecer uma utilização mais sustentável dos recursos tecnológicos e aproximar a inovação das necessidades concretas dos seus utilizadores.

As pessoas mais velhas como parceiras da inovação

As pessoas mais velhas não devem ser vistas apenas como utilizadoras finais da tecnologia. Podem participar ativamente nas decisões sobre o conteúdo, o funcionamento e as prioridades de uma solução digital. Quando são ouvidas desde o início, torna-se possível identificar barreiras que poderiam passar despercebidas e desenvolver respostas mais próximas da sua realidade, dos seus interesses e das suas rotinas.

A participação conjunta de pessoas com 55 ou mais anos, enfermeiros e decisores políticos permitiu reunir diferentes tipos de conhecimento: a experiência de quem poderá utilizar a plataforma, a perspetiva clínica dos profissionais e a visão de quem planeia respostas e políticas locais para o envelhecimento ativo e saudável. Esta diversidade reforçou a capacidade do processo de co-design para transformar perceções e necessidades em orientações concretas para a adaptação da Sioslife ao contexto domiciliário e comunitário.

O que este estudo permite concluir

O estudo permitiu identificar e priorizar funcionalidades consideradas relevantes para a utilização autónoma da plataforma em casa, nomeadamente a personalização, a atividade física, os lembretes, os recursos educativos e as oportunidades de interação social. O estudo não avaliou, nesta fase, os efeitos da solução adaptada sobre a saúde, a autonomia ou a qualidade de vida. Por isso, as conclusões devem centrar-se na relevância das prioridades identificadas e no valor de envolver os utilizadores no processo de adaptação.

A parceria entre a investigação e a Sioslife tornou possível transformar as perspetivas dos participantes em orientações para o desenvolvimento da plataforma. Os passos seguintes irão avaliar a efetividade, a usabilidade, a aceitabilidade e a utilização da solução adaptada ao longo do tempo.

Financiamento: Fundação para a Ciência e a Tecnologia, através da bolsa de investigação UI/BD/154395/2023. O estudo contou com o apoio e a colaboração da Sioslife.

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