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Este artigo baseia-se no estudo científico “Digital Health for Aging in Place: A Co-Design Study”, desenvolvido no âmbito do projeto de Doutoramento em Enfermagem, de Joana Bernardo Loureiro, intitulado “AtiVida – Desenvolvimento de uma Intervenção de Enfermagem com recurso digital para um Envelhecimento Ativo e Saudável”. DOI: 10.1177/2161783X261445292
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Muitas pessoas desejam continuar a viver em casa à medida que envelhecem. No entanto, envelhecer no próprio domicílio implica manter rotinas saudáveis, preservar a autonomia, continuar socialmente ligado e encontrar apoio quando surgem novas necessidades. A tecnologia pode contribuir para este objetivo, mas apenas quando se adapta à vida real, às capacidades e às preferências de cada pessoa.
Mas como podemos saber aquilo de que as pessoas mais velhas realmente precisam? Uma resposta possível é ouvir quem irá utilizar a tecnologia e envolver essas pessoas nas decisões desde o início. Em vez de desenvolver soluções apenas a partir da perspetiva dos profissionais ou das empresas tecnológicas, o co-design — ou desenho colaborativo — permite que pessoas mais velhas e outros intervenientes contribuam diretamente para a identificação de necessidades, para a proposta de melhorias e para a definição de prioridades.
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O processo decorreu em três momentos: exploração da plataforma, identificação de necessidades e barreiras e priorização das funcionalidades consideradas mais relevantes para utilização no domicílio.
Durante o primeiro momento, os participantes exploraram autonomamente a plataforma durante 30 minutos. Depois, partilharam as suas primeiras impressões, discutiram as condições necessárias para uma utilização independente em casa e organizaram as propostas de adaptação de acordo com a sua relevância e viabilidade.
Desde o primeiro contacto, os participantes destacaram a facilidade de utilização, o caráter intuitivo da plataforma, a organização visual da informação e a diversidade de conteúdos disponíveis. Os jogos e as atividades de estimulação cognitiva foram igualmente valorizados, bem como o potencial da tecnologia para favorecer a interação e proporcionar atividades significativas no quotidiano.
A possibilidade de individualizar a experiência foi um dos aspetos mais valorizados. Os participantes não procuravam uma solução igual para todos: pretendiam poder escolher conteúdos, adaptar atividades aos seus interesses e utilizar uma interface clara, legível e fácil de compreender. A personalização foi entendida como uma condição importante para que a tecnologia respeite as preferências, as capacidades e os objetivos de cada pessoa.
A inclusão de uma componente de atividade física foi a sugestão mais frequente, tendo sido mencionada 27 vezes durante o processo de co-design. Os participantes propuseram exercícios simples, mobilidade, flexibilidade, fortalecimento muscular, vídeos e aulas em grupo adaptadas às capacidades das pessoas mais velhas. Esta funcionalidade foi classificada como essencial, correspondendo à categoria “Must Have” da técnica de priorização utilizada no estudo.
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A criação de uma rede de comunicação, com canais de conversa e de partilha entre utilizadores, foi também uma prioridade. Os participantes consideraram que a plataforma poderia criar oportunidades de contacto, participação e envolvimento social, sobretudo para pessoas que vivem mais isoladas ou que têm dificuldades em deslocar-se. Importa, contudo, interpretar este resultado como uma expectativa dos participantes: o estudo não avaliou diretamente efeitos sobre a solidão ou o isolamento social.
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Foram propostas agendas, lembretes personalizados, um diário de saúde, o registo de objetivos e notificações relacionadas com atividades, consultas ou medicação. Estas funcionalidades foram valorizadas por poderem apoiar a organização do dia, a continuidade das rotinas e a manutenção da motivação, sem substituir a decisão e a autonomia da própria pessoa.
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Os participantes sugeriram a disponibilização de vídeos de exercício, aulas em grupo e conteúdos educativos sobre estilos de vida saudáveis. Consideraram igualmente importante existir um tutorial inicial, com orientações simples e claras, que facilitasse a aprendizagem da plataforma e aumentasse a confiança na sua utilização.

Enfermeiros e outros participantes sugeriram que, numa fase futura, a plataforma pudesse facilitar o contacto com profissionais de saúde e apoiar a continuidade dos cuidados. Também foi proposta uma caracterização mais detalhada da pessoa e das suas necessidades. Estas funcionalidades foram consideradas desejáveis, mas não prioritárias para a primeira fase de adaptação.
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Estas propostas mostram que utilizar uma plataforma digital em casa coloca desafios diferentes daqueles que existem num contexto institucional. Numa instituição, a tecnologia beneficia de rotinas previamente organizadas, do apoio de profissionais e de acompanhamento próximo. No domicílio, a pessoa precisa de maior autonomia, de razões para continuar a utilizar a solução e de funcionalidades que apoiem a motivação, a personalização, a organização e a interação social.
Esta é uma das principais contribuições do estudo: demonstrar que inovar não significa necessariamente desenvolver uma tecnologia completamente nova. Também pode significar, adaptar, reutilizar e melhorar uma solução já existente, tornando-a mais adequada às condições reais de vida das pessoas e aos contextos comunitários. Esta estratégia pode favorecer uma utilização mais sustentável dos recursos tecnológicos e aproximar a inovação das necessidades concretas dos seus utilizadores.
As pessoas mais velhas não devem ser vistas apenas como utilizadoras finais da tecnologia. Podem participar ativamente nas decisões sobre o conteúdo, o funcionamento e as prioridades de uma solução digital. Quando são ouvidas desde o início, torna-se possível identificar barreiras que poderiam passar despercebidas e desenvolver respostas mais próximas da sua realidade, dos seus interesses e das suas rotinas.
A participação conjunta de pessoas com 55 ou mais anos, enfermeiros e decisores políticos permitiu reunir diferentes tipos de conhecimento: a experiência de quem poderá utilizar a plataforma, a perspetiva clínica dos profissionais e a visão de quem planeia respostas e políticas locais para o envelhecimento ativo e saudável. Esta diversidade reforçou a capacidade do processo de co-design para transformar perceções e necessidades em orientações concretas para a adaptação da Sioslife ao contexto domiciliário e comunitário.
O estudo permitiu identificar e priorizar funcionalidades consideradas relevantes para a utilização autónoma da plataforma em casa, nomeadamente a personalização, a atividade física, os lembretes, os recursos educativos e as oportunidades de interação social. O estudo não avaliou, nesta fase, os efeitos da solução adaptada sobre a saúde, a autonomia ou a qualidade de vida. Por isso, as conclusões devem centrar-se na relevância das prioridades identificadas e no valor de envolver os utilizadores no processo de adaptação.
A parceria entre a investigação e a Sioslife tornou possível transformar as perspetivas dos participantes em orientações para o desenvolvimento da plataforma. Os passos seguintes irão avaliar a efetividade, a usabilidade, a aceitabilidade e a utilização da solução adaptada ao longo do tempo.
Financiamento: Fundação para a Ciência e a Tecnologia, através da bolsa de investigação UI/BD/154395/2023. O estudo contou com o apoio e a colaboração da Sioslife.