Com Andreia Freitas, psicomotricista do Lar Porto da Cruz e criadora de @dosedepsicomotricidade
No Lar Porto da Cruz, na Madeira, há um lugar onde a tecnologia se encontra com a emoção e o movimento. À frente deste trabalho está Andreia Freitas, psicomotricista e criadora do projeto @dosedepsicomotricidade, que desde 2020 utiliza a Sioslife para criar experiências únicas, personalizadas e profundamente humanas.
“Acredito que cada idoso tem um ritmo, uma história e um potencial. A tecnologia não substitui o toque humano, mas pode ser o elo que nos aproxima ainda mais.” – Andreia Freitas
Para a Andreia, tudo começa no corpo. E, antes de tudo, é preciso que o corpo “acorde”.
“Mesmo um pequeno movimento, como levantar o braço para tocar num objeto no ecrã, já ativa músculos que muitas vezes estão adormecidos.”
Além disso, a Andreia aproveita a maleabilidade do computador com ecrã regulável para criar desafios adaptados.
“Se preciso que se esforcem mais, subo o ecrã de propósito. Assim, eles têm de levantar mais os braços e envolver o tronco. É uma forma simples de trabalhar tonicidade e amplitude de movimento sem que sintam que estão a fazer exercício.”
Jogos como “apanhar frutas” e “bolas de sabão” completam o treino, convidando os utentes a movimentarem-se com naturalidade enquanto se divertem.
O passo seguinte é encontrar confiança no corpo. Muitos utentes têm medo de cair, e por isso a Andreia introduz o treino do equilíbrio de forma discreta e motivadora.
“Com os jogos, conseguimos trabalhar o equilíbrio sem pressão. Peço-lhes que fiquem de pé e, quando não é possível, adapto os exercícios para a cadeira, garantindo que todos participam.”
Também aqui, a Andreia utiliza o ecrã ajustável para criar pequenas metas físicas:
“Às vezes coloco o computador um pouco mais alto para os incentivar a levantar-se ou esticar mais o corpo. É uma forma de trabalhar o equilíbrio de forma segura e controlada.”
Muitas atividades são acompanhadas de música, criando sequências rítmicas simples que ajudam o corpo a estabilizar-se e a mente a relaxar.
“Há utentes onde a demência faz com que já não se reconheçam no espelho. Com a Sioslife, usamos a câmara para que se vejam e percebam que o corpo é deles.”
Com videochamadas interativas, Andreia pede que os utentes levantem a mão direita, toquem no ombro esquerdo, toquem no nariz ou cruzem os braços. Pequenos desafios que reforçam a perceção do corpo e a ligação entre mente e movimento.
Além das videochamadas interativas, Andreia usa um recurso muito especial da Sioslife: o modo das fotografias em stand by. Enquanto o sistema está inativo, o ecrã exibe fotografias dos próprios utentes durante atividades no lar.
“Tenho uma fotografia de grupo em que uns levantam as mãos, outros cruzam os braços. Peço-lhes para se reconhecerem nas imagens e para observarem o que os colegas estão a fazer.”
Esta abordagem reforça o esquema corporal e, ao mesmo tempo, aumenta a autoestima e o sentido de pertença. Os utentes sentem-se valorizados por se verem representados e envolvidos nas atividades.
Depois de conhecerem o corpo, o passo seguinte é usá-lo com intenção.
“Peço-lhes que encontrem um objeto à direita e outro à esquerda. Parece simples, mas envolve atenção, memória e coordenação.”
Jogos para encontrar figuras coloridas, com uma mão e depois com outra, e atividades com música ajudam os utentes a treinar lateralidade de forma natural e divertida. Para tornar o treino mais dinâmico, Andreia integra exercícios com música que alternam os movimentos dos dois lados do corpo, como por exemplo:
“A música ajuda muito. Eles entram no ritmo e nem percebem que estão a treinar coordenação e lateralidade.”
“Quando têm de localizar objetos no ecrã ou pintar os cartões do bingo, estão a trabalhar noção de espaço sem perceberem.”
O bingo no Lar Porto da Cruz é muito mais do que um jogo: é um momento especial, esperado por todos e uma das ferramentas mais eficazes da Andreia para estimular competências psicomotoras.
Para o tornar ainda mais rico, ela adaptou a atividade:
“O bingo é o nosso momento especial. Eles nem percebem que estão a treinar coordenação, atenção e agilidade… para eles é só diversão e convívio.” – Andreia Freitas
Além disso, o jogo promove socialização e trabalho em equipa: os utentes ajudam-se uns aos outros, celebram as vitórias e criam um ambiente de competição saudável. É um dos dias mais animados do lar!
“Com quizzes e músicas conseguimos trabalhar passado, presente e futuro de forma natural e divertida.”
Com a Sioslife, Andreia utiliza notícias do dia para trabalhar a orientação temporal, mas foca esta atividade nos utentes mais independentes e cultos, que gostam de se manter atualizados. Ela pede que leiam a notícia, distingam “ontem”, “hoje” e “amanhã” e, depois, que lhe façam um resumo.
“Não é só situá-los no tempo. Pergunto-lhes mais detalhes sobre o que leram para que interpretem o conteúdo, expressem opiniões e exercitem a memória.”
Além disso, a música tem um papel central. Um dos exemplos mais marcantes é o uso do “Bailinho da Madeira”, que vai muito além do treino do ritmo. Durante a atividade, Andreia aproveita o próprio vídeo, que mostra imagens de várias zonas da ilha, para estimular o reconhecimento visual:
“Enquanto a música toca, vou perguntando: ‘Sabem onde fica este lugar?’ ou ‘Alguém conhece este sítio?’. Eles adoram participar e partilhar memórias da sua terra.”
Esta abordagem liga movimento, memória, emoção e pertença, transformando a música num recurso completo e envolvente.
E há casos ainda mais emocionantes:
“Temos uma senhora que chora sempre que ouve ‘Mãe Querida’, do Tony Carreira, porque a música a transporta para memórias antigas. É impressionante ver como a música consegue despertar sentimentos tão profundos.”
Há espaço para emoção, mas também para gargalhadas.
“Uma vez, uma utente começou a bater no ecrã porque queria ‘matar os bichinhos’ do jogo. Foi um momento hilariante que todos lembramos!”
Outra história marcante envolve uma senhora que encontrou na Sioslife a desculpa perfeita para escapar à ginástica: enquanto os colegas estão na aula de exercício físico, ela senta-se com os auscultadores e fica a ouvir música no computador.
“Ela acha que consegue fugir, mas no fim lá levo-a para a ginástica também!” – conta Andreia, a rir. “O importante é que encontrem prazer nas atividades, mas sem deixarmos de trabalhar o corpo e o movimento.”
Andreia acredita que a personalização é a chave para o sucesso da intervenção. Criou um calendário individualizado para que cada utente tenha o seu tempo reservado com a Sioslife.
“Tenho utentes que escolhem as atividades que querem fazer. Alguns adoram música, outros preferem quizzes, outros só querem jogos de motricidade. Quando respeitamos isso, a adesão aumenta.”
Este calendário vai muito além da organização. Para muitos utentes, representa um compromisso semelhante ao que tinham quando trabalhavam:
“Eles gostam de saber que têm um horário marcado. Para alguns, é como se fosse o seu ‘trabalho do dia’. Dá-lhes um sentido de responsabilidade e até de pertença.”
Desta forma, a Andreia não só personaliza as atividades, como também recria uma sensação de rotina, tão importante para a identidade, autoestima e bem-estar emocional dos utentes.
Outro ponto essencial é o trabalho em equipa. Andreia conta com colegas que dão apoio direto nas atividades, permitindo que a Sioslife funcione como um complemento perfeito:
“Enquanto as minhas colegas acompanham os utentes nos exercícios que indico e que são mais adequados, eu consigo dedicar tempo ao planeamento e à avaliação. Isto faz toda a diferença, porque conseguimos chegar a mais pessoas e com maior qualidade.”
O trabalho da Andreia, aliado à tecnologia da Sioslife, tem transformado a forma como os utentes vivem o dia a dia. Cada sessão é uma oportunidade de estimular corpo e mente, mas também de resgatar memórias, criar conexões e dar sentido a cada momento.
Para os utentes, os resultados são claros:
Mas o impacto vai além dos utentes. Para a Andreia e para a equipa, a Sioslife tornou-se um aliado indispensável no dia a dia:
“A Sioslife dá-me espaço para ser criativa, para chegar a mais pessoas e para tornar cada sessão única. Mais do que uma ferramenta, é uma parceira no meu trabalho diário.” – Andreia Freitas
Este é o verdadeiro impacto: unir tecnologia, criatividade e cuidado humano para criar experiências que transformam vidas — tanto dos utentes, como dos profissionais que os acompanham.